Source Pravda.Ru

Moluscos Heróis

Uma espécie de moluscos de água doce, autóctones da Tailândia, cuja sobrevivência se encontra ameaçada, poderá ser recuperada graças à sua produção in vitro, sendo mesmo possível, num futuro próximo, a produção de pérolas através deste processo. A experiência foi feita no âmbito de uma tese de doutoramento desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, em colaboração com a Universidade de Kasetsart, na Tailândia.

O objectivo mais imediato do projecto de investigação é conseguir a produção dos animais, designados cientificamente por Hiriopsis myersiana, cuja sobrevivência se encontra seriamente ameaçada na Tailândia, mas também em outros pontos do globo. Numa segunda etapa, os investigadores admitem partir para a produção de pérolas.

Com uma importância enorme na economia local - estes moluscos são uma importante fonte de proteínas, para além de serem utilizados na produção de peças de artesanato -, têm os seus habitats seriamente ameaçados devido à contaminação por pesticidas, à intensa navegação a motor nos cursos de água, ao lixo e à extracção de areias do leito dos rios.

Para contrariar esta situação, pretende-se, no âmbito do estudo desenvolvido no ICBAS, "desenvolver as técnicas da cultura de glochídio, a larva do molusco, visando obter um grande número de exemplares em condições que lhes permitam atingir o estádio juvenil, menos vulnerável aos condicionalismos que ameaçam o ecossistema. Uthaiwan Kovitvadhi, autora da tese de doutoramento, lembra que "na produção in vitro um milhão de larvas dará origem a um milhão de jovens moluscos". Estamos, assim, perante uma eficiência de quase cem por cento, enquanto em habitat natural essa eficácia é drasticamente reduzida.

Jorge Machado, orientador da tese de doutoramento no ICBAS, adianta que "um objectivo secundário é obter um número excedentário de animais para experiências em toxicologia ambiental, dado que os moluscos constituem excelentes modelos biológicos", uma vez que, "graças às suas características morfológicas e fisiológicas, permitem indicar a presença de diversos agentes poluidores, nomeadamente metais pesados, mesmo em baixas concentrações, assim como registar os seus efeitos negativos, principalmente ao nível da calcificação da concha".

Aliada às ameaças ambientais que colocam em causa o desenvolvimento das larvas, impedindo o desenvolvimento da espécie, a grande procura de que este tipo de bivalve é alvo pela população, que o utiliza tanto na alimentação como no artesanato local, deixa em risco a sobrevivência da espécie.

Um outro objectivo a ter em conta a médio ou longo prazo, segundo o orientador da tese, "é criar um stock populacional enorme que pudesse servir de suporte à produção seminatural de pérolas de água doce". Jorge Machado lembra ser "actualmente reconhecido que a população de pérolas de água doce oferece cada vez mais uma aparência tão invejável, a nível de tamanho, forma e cor, quanto a das ostras do mar". Uma situação que fica a dever-se, sobretudo, à recente tecnologia desenvolvida por investigadores chineses, "com a vantagem de se poder extrair várias pérolas de um só animal".

A investigação desenvolvida permitiu, por outro lado, definir uma dieta "quase ideal" para o desenvolvimento desta espécie. Na fase de cultura das larvas, estas são alimentadas com um composto onde está presente soro de cavalo ou plasma de peixe, enquanto fonte de enriquecimento de proteínas e de factores de crescimento. Para proporcionar condições mínimas de esterilidade, foram adicionados ao meio agentes antibióticos e antimicóticos. O registo da patente deste composto é um dos objectivos da equipa de investigação, que visa, por outro lado, desenvolver esta área. No âmbito de uma outra tese de doutoramento, será desenvolvida a cultura de juvenis, visando levar o processo até à fase adulta.

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